SIMIA IN TECTUM...

Notícia: Mons. Luiz Rodrigues Oliveira | Publicação: 05/07/2020
Fotos: Pascom

Nestes dias nos quais estamos celebrando alguns dos nossos santos populares (S. Antônio à frente) algumas situações gravíssimas me vêm à cabeça. Não po-deria não externá-las, mesmo consciente da pouca recepção que elas alcançarão no universo ao qual gostaria de encaminhá-las.

  1. A beleza e a riqueza do “Responso de Santo Antônio”: Santo Antô-nio, rogai por nós, intercedei a Deus por nós.
  • pregador  do  Evangelho:  intercedei...  pelo  povo  abandonado...para  sermos  mensageiros...da justiça e da esperança...
  • Mestre Sábio da Verdade: intercedei... pela Igreja peregrina...pelos jovens na-morados...pelos lares em perigo...
  • Irmão  dos  pequeninos:  intercedei...  pelos  pobres  e  doentes...pelos  tristes  e  abatidos...pelos povos oprimidos...
  • para o mundo ser mais justo...pela paz da humanidade...para sermos mais fra-ternos...para acharmos o perdido...”.

Vejam como somos capazes de relativizar o essencial e nos fixarmos em coisas que, embora boas, são acidentais. De tantos graves e necessários pedidos que ao Santo formulamos, o que mais se firmou na cultura religiosa católica foi que ele é “casamenteiro” e “recuperador de objetos perdidos”!
Pedir  a  Deus,  por  intermédio  de  Santo  Antônio  que  sejamos  mensageiros  da  justiça e da esperança, defensores dos pobres e oprimidos e lutarmos para que  o  mundo  seja  mais  justo  e  fraterno,  lutarmos  pela  paz  mundial;  sermos Igreja peregrina; alegrando os tristes e abatidos, etc. etc. tem pouca importância...Meu Deus, que está dizendo esse Santo lá no céu ao ouvir que aqui no Brasil milhões e milhões de devotos estão proclamando-o como “santo casamenteiro”, ou “capitão do mato” que procura objetos e escravos fugitivos para devolvê-los aos seus proprietários ou afins? Ele certamente diria o que dissera numa homilia de Pentecostes: “...esses pastores são como “símia in tectus praesidem Dei Populi” (macacos sobre o telhado presidindo o Povo de Deus).

 

  1. Acabamos de ler, ver, ouvir que o Exmo. Sr. Presidente da República  Fe-derativa  do  Brasil  do  alto  da  sua  autoridade  moral  de  governo  e  de  cidadania  concitou  o  povo  a  invadir  hospitais,  fotografar  espaços  físicos,  médicos, funcionários, doentes, o que estiver ao alcance para provar que está existindo histeria nas informações sobre o Covid 19!

Mais de quarenta mil brasileiros já morreram nesses setenta dias da confirmação do coronavirus entre nós. Cerca de 150 mil pessoas choram a dor doida  da  morte  morrida  do  ente  querido  que  a  incúria  de  muitos  gover-nos relativizou ao longo dos anos ao não cuidar devidamente das urgentes questões sanitárias nesse país de tantas riquezas e belezas naturais, mas de tantas irresponsabilidades sociais.
Ao cantarmos “pelos pobres, doentes, tristes e abatidos” peçamos ao Santo “milagreiro”  que  profira  outro  discurso  nesse  tom:  “homicida,  genocida,  interfector in palace praesidem brasiliens populi”.

  1. Quando vejo pastores (bispos, padres o que seja) sempre  sorridentes diante das câmeras como se estivessem em pleno gozo de eternidade ante tantas mazelas deste mundo e a massa católica rezando “Santo Antônio, rogai por nós,  mestre  sábio  da  verdade...por  uma  Igreja  peregrina...pelos  lares  em  perigo, etc lembro-me de um senhor que diante de uma foto sorridente de um político que nunca deu um sorriso para ninguém (eu convivi com esse político por nove anos na UFBa.) perguntava: tá rindo de que? É da miséria da gente? Sem desconhecer nem renegar tudo quanto diz o papa Francisco na  Evangelii  Gaudium,  poder-se-ia  dizer  com  Leonardo  Boff:  “esse  é  o  cristianismo de bobo alegre” e eu acrescento: não são os mensageiros da esperança e da justiça, mas os pregoeiros do Cristo adocicado, do Deus pai lexotan ao qual rezamos para pedir o céu sem pedir nem oferecer o pão...mesmo que seja o de Santo Antônio das terças feiras nas igrejas cheias de devotos da aeróbica sem corpo, pois corpo é carne e carne é pecado!